Capítulo 103 — Medições e Liberação de Recursos: Como o Banco Acompanha o Avanço da Obra
Síntese. As medições bancárias são vistorias técnicas periódicas realizadas por engenheiros do agente financeiro para verificar o avanço físico da obra, compará-lo com o cronograma aprovado e, assim, autorizar a liberação das parcelas de recursos do financiamento para a construtora.
Medições bancárias são vistorias para liberar parcelas do financiamento, verificando o avanço físico da obra conforme o cronograma.
A liberação de recursos em obras financiadas é um processo que exige rigor e organização da construtora. Diferentemente de um contrato particular onde o pagamento pode ser mais flexível, o financiamento bancário impõe um controle externo e sistemático: as medições. Entender como esse processo funciona é crucial para garantir o fluxo de caixa da obra e evitar interrupções que podem ser custosas e prejudiciais à reputação da construtora.
O que são as medições bancárias e qual sua finalidade?
As medições bancárias são inspeções técnicas realizadas por engenheiros ou arquitetos credenciados pelo banco. Geralmente ocorrem mensalmente, mas a periodicidade pode variar conforme o contrato e o porte da obra. Sua principal finalidade é: 1. Atestar o Avanço Físico: Verificar in loco o percentual de obra executado em relação ao cronograma físico-financeiro aprovado. 2. Garantir a Aplicação dos Recursos: Assegurar que o dinheiro do financiamento está sendo aplicado na construção do imóvel, e não desviado para outras finalidades. 3. Proteger o Investimento do Banco e do Cliente: O banco tem a garantia de que o imóvel, que serve de colateral para o empréstimo, está sendo construído conforme o projeto e dentro dos padrões de qualidade. O cliente, por sua vez, tem a segurança de que o dinheiro liberado está sendo usado na sua casa.
O engenheiro fiscal do banco elabora um laudo de vistoria, que servirá de base para a liberação da próxima parcela do financiamento.
Como preparar a obra para a medição e o que o engenheiro fiscal avalia?
Preparar a obra para a medição é um processo que exige organização e comunicação. A construtora deve: 1. Manter o Canteiro Organizado: Um canteiro limpo e organizado facilita a vistoria e transmite uma imagem de profissionalismo e controle. 2. Atualizar o Diário de Obra: Registrar diariamente o progresso, mão de obra, materiais recebidos e eventos relevantes. Isso serve como prova do avanço. 3. Documentar Fotograficamente: Tirar fotos das etapas concluídas, especialmente aquelas que serão verificadas na medição. 4. Ter o Cronograma e Projetos à Mão: O engenheiro fiscal irá comparar o que vê na obra com o que está previsto nos documentos aprovados. 5. Acompanhar a Vistoria: O engenheiro da construtora deve acompanhar o fiscal do banco, esclarecendo dúvidas e apontando as etapas concluídas.
O engenheiro fiscal avalia principalmente: - Avanço Físico: O percentual de execução de cada etapa em comparação com o cronograma. - Qualidade da Execução: Embora não seja uma fiscalização de qualidade detalhada, o fiscal verifica se a obra está sendo executada com materiais e técnicas adequadas. - Conformidade com o Projeto: Se o que está sendo construído corresponde ao projeto arquitetônico e ao memorial descritivo aprovados. - Regularidade: Verificação de alvarás, ARTs/RRTs e outras licenças.
Quais os prazos de liberação e os percentuais típicos?
Os prazos para a liberação dos recursos após a medição variam entre os bancos, mas geralmente ocorrem entre 5 e 15 dias úteis após a vistoria e a entrega do laudo. Esse tempo de processamento deve ser considerado no planejamento do fluxo de caixa da obra.
Os percentuais de liberação são diretamente atrelados ao avanço físico. Se o cronograma prevê 15% de avanço no primeiro mês e a vistoria confirma esse percentual, o banco libera 15% do valor total da construção. É raro que o banco libere um valor maior do que o avanço físico constatado. Em alguns casos, pode haver um pequeno adiantamento inicial (0% a 5% do valor da construção) para despesas preliminares, mas isso não é regra e depende da linha de crédito e do banco.
Para o cliente, é importante entender que, durante a fase de construção, ele pagará os juros sobre o valor já liberado pelo banco, além de seguros e taxas administrativas. Quanto mais rápido a obra avança e os recursos são liberados, maior será o valor dos juros de obra pagos, mas também mais rápido a obra será concluída.
Onde se perde dinheiro
O erro fatal é a construtora não ter um controle rigoroso do avanço da obra e não gerenciar a expectativa do fluxo de caixa com base nos prazos de liberação bancária. Quando a medição é glosada (total ou parcialmente) ou o laudo atrasa, a construtora pode se ver sem os recursos esperados para honrar compromissos com fornecedores e mão de obra. Essa falta de planejamento financeiro leva a paralisações da obra, necessidade de capital de giro emergencial (muitas vezes caro), multas contratuais por atraso e, em última instância, a um prejuízo significativo e à perda de confiança do cliente e do banco.
Números de referência:
| Item | Valor/Prazo | Fonte/Observação |
|---|---|---|
| Periodicidade de medição | Mensal | Mais comum, varia por contrato |
| Prazo para liberação pós-vistoria | 5 a 15 dias úteis | Varia por banco e agilidade no processamento |
| Percentual de liberação | Conforme avanço físico | Raramente ultrapassa o avanço constatado |
| Custo de vistoria de engenharia | R$ 800 a R$ 1.500 | Repassado ao cliente, por vistoria |
| Desvio aceitável em avanço físico | +/- 5% | Varia por banco, desvios maiores podem gerar glosas |
Quem executa
A preparação da obra e o acompanhamento da vistoria são responsabilidade do engenheiro ou mestre de obras da construtora. A solicitação da medição e o acompanhamento do processo de liberação de recursos são feitos pelo departamento financeiro ou administrativo da construtora, em comunicação com o correspondente bancário e o gerente do banco. A vistoria e a elaboração do laudo são do engenheiro fiscal credenciado pelo banco.
Passo a passo
- Manter o diário de obra atualizado com o progresso diário.
- Organizar o canteiro e os documentos (projetos, cronograma, ARTs/RRTs) para a vistoria.
- Agendar a medição com o banco com antecedência, respeitando os prazos contratuais.
- Acompanhar o engenheiro fiscal durante a vistoria, esclarecendo dúvidas e evidenciando o avanço.
- Receber o laudo de vistoria e verificar se não há glosas ou observações.
- Acompanhar o prazo de liberação dos recursos na conta bancária.
- Comunicar ao cliente o avanço da obra e a liberação da parcela.
- Registrar todas as medições e liberações para controle financeiro interno.
Termos-chave
- Medição bancária: Vistoria técnica realizada pelo engenheiro do banco para verificar o avanço físico da obra.
- Laudo de vistoria: Relatório emitido pelo engenheiro fiscal do banco após a medição, atestando o avanço e as condições da obra.
- Glosas: Não aprovação de parte ou totalidade do valor solicitado em uma medição por não conformidade ou atraso.
- Juros de obra: Juros pagos pelo cliente ao banco sobre o valor já liberado do financiamento durante a fase de construção.
- Cronograma Físico-Financeiro: Documento que serve de base para o banco comparar o avanço real da obra com o previsto.
Perguntas frequentes sobre este capítulo
Posso solicitar uma medição antes do prazo mensal previsto?
Geralmente não. A periodicidade das medições é definida em contrato. Solicitações antecipadas são raras e dependem de justificativa excepcional e aprovação do banco, podendo gerar custos adicionais.
O que devo fazer se o laudo de vistoria do banco tiver erros?
Em caso de erros ou glosas indevidas no laudo, a construtora deve contestar formalmente o banco, apresentando provas (fotos, diário de obra, ARTs) que comprovem o avanço ou a correção do erro.
O banco libera os recursos para a compra de materiais antes da execução?
Não. A liberação é baseada no avanço físico da obra. O banco não libera valores para estoque de materiais, apenas para o que já foi efetivamente incorporado à construção.
Qual a importância do diário de obra para as medições?
O diário de obra é uma ferramenta essencial para documentar o progresso diário, a mão de obra, os materiais e os eventos. Ele serve como prova do avanço e pode ser usado para justificar o que foi executado durante a vistoria.
A construtora precisa ter um engenheiro próprio para acompanhar o fiscal do banco?
Sim, é altamente recomendável que um engenheiro ou mestre de obras da construtora acompanhe o fiscal do banco. Esse acompanhamento garante que todas as etapas concluídas sejam devidamente apresentadas e esclarece eventuais dúvidas no local.
Ver também
- Capítulo 102 — Cronograma Físico-Financeiro Como Peça-Chave da Aprovação Bancária
- Capítulo 104 — Capital de Giro de Segurança: Por Que Manter 1,5 Ciclo de Medição em Caixa
- Capítulo 105 — O Que Fazer Quando o Laudo do Engenheiro Fiscal Atrasa ou Glosa a Medição
- Capítulo 109 — Banco Público x Banco Privado: Comparativo de Taxa, Prazo e Exigência de Garantia
Fontes
- Normativos Internos da Caixa Econômica Federal e outros bancos sobre vistorias e medições de obras — verificar a norma vigente
- NBR 12721:2006 — Avaliação de custos de construção para incorporação e outras disposições
- Lei nº 9.514/1997 — Dispõe sobre o Sistema de Financiamento Imobiliário (SFI)
Leia também
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